Resistência cultural

 

O centro de São Paulo é palco de iniciativas e ocupações culturais fervilhantes enquanto o debate sobre a tal revitalização rola solto

Bianka Vieira

O sábado está prestes a acabar. O relógio se aproxima das 23 horas. Partindo do número 337 da rua Dom José de Barros, onde está a Trackertower, uma fila de pessoas procurando por transe melódico e embalos de eras passadas dobra a avenida São João. Não é a única aglomeração na área: a menos de 100 metros dali, uma massa de drag queens se forma em frente ao Espaço 555. E não muito longe, no Brás, o techno da Mamba Negra se prepara para dar o bote na caretice e nos bons costumes, enquanto, na Bela Vista, a festa Pilantragi mistura tudo o que há de bom na música nacional e dita o balanço dos corpos. Da surdina da noite até o dia clarear, o centro da capital vive e resiste mais intenso do que nunca.

Esse fervilhar musical e cultural do centro de São Paulo é chamado de revitalização por alguns, retomada ou ocupação por outros. Controvérsias à parte, tem muita gente disposta a fazer esse pedaço da cidade pulsar. Paulo Faria, 52 anos, é um deles. Há 18 anos, o diretor e dramaturgo leva a história do bairro da Luz para os palcos da companhia teatral Pessoal do Faroeste. “É uma história rica e pouco conhecida. A nossa função aqui é criar sentimento de pertencimento a partir dela, para que a população ocupe este local de uma forma política e afetiva e se reconheça nele.”

 

Na época do De Braços Abertos, programa de redução de danos criado pela prefeitura, a companhia participou da Virada Cultural com um palco em pleno “fluxo”. Ali, os protagonistas eram os próprios dependentes químicos habitantes da região. “Somente a arte e a cultura são capazes de criar espaços de resistência, simplesmente por serem genuinamente expressão humana”, garante Paulo.

E enquanto alguns veteranos fincam suas raízes no coração da capital, outros ensaiam entrar na cena. O skatista profissional, grafiteiro e multimídia Alex Feldmann, 43, mais conhecido como Ghost, estreará em abril deste ano a Gut Trap, festa tramp que pretende misturar estilos de música eletrônica com rap.

“Queremos trazer um pouco da arte teatral para o centro. A ideia é iniciar o estilo de vida da música trap, que traz uma tendência nova, colorida e eletrizante de comportamento”, diz Alex. As edições da Gut Trap acontecerão na Trackers, e contarão com projeções e performances em frente ao local.

Revitalização?

Embora a chegada de novos empreendimentos e a migração de espaços culturais marquem o centro como epicentro cultural, para Alex Feldmann muita coisa já acontece na região há muito mais tempo. Como exemplo, ele cita a própria rua Dom José de Barros. “Ali acontecem, semanalmente, batalhas de MCs, slams, sound system e feira do rolo, tudo iniciativa independente da própria população.” Por conta disso, Alex tem o pé atrás com iniciativas que se propõem a “revitalizar” o centro. O diretor Paulo Faria também enxerga a ideia com receio. “Não concordo com o termo ‘revitalizar’ porque ele parte do pressuposto de que não há vida”, diz.

Regina Prosperi Meyer, professora da FAU-USP, explica que a palavra “revitalização” se desgastou por seu uso indiscriminado, quando não impróprio. “Quem frequenta o centro durante o dia pode constatar uma enorme vitalidade nas suas ruas. O que ocorre é que essa vitalidade tem sido considerada aquém do que se busca para a região”, afirma.

A arquiteta e urbanista destaca que recuperar o potencial do centro não implica numa volta ao passado, como acreditam alguns especialistas. “É difícil fazer a sociedade entender que as atividades que estavam no centro até os anos 50 não são as existentes hoje. Por outro lado, é preciso que o centro seja mantido de forma exemplar. Suas belas praças não podem ficar abandonadas.”

Ocupação artística

“O movimento de ocupação nasce da necessidade de tomar pra si espaços ociosos para dar a eles uma função social, seja através da arte ou da cultura”, diz Alex Assunção, 26, um dos gestores da Casa Amarela Quilombo Afroguarany, espaço ocupado por artistas desde 2014. “Em São Paulo, temos cerca de 400 mil imóveis vazios, sendo a maioria deles públicos, o que faz as ocupações ainda mais legítimas”, defende.

Segundo dados do Departamento de Controle da Função Social da Propriedade da Prefeitura divulgados em 2016, São Paulo possui mais de 2 milhões de metros quadrados de imóveis não utilizados, subutilizados ou não edificados. Desse total, 63% estão na chamada “Operação Urbana Centro”, área que abrange as regiões dos chamados Centro Velho e Centro Novo.

“Nem todos os prédios subutilizados precisam ser necessariamente convertidos em habitação. É preciso diversificar os usos”, comenta a professora Regina Prosperi Meyer.

E aí é que entra a arte.

De segunda a domingo, a Casa Amarela, patrimônio tombado pela Associação Amigos do Patrimônio e Arquivo Histórico (AAPAH) desde 2006, traz uma programação que vai de aulas de inglês, breakdance e cursos de teatro a oficina de artes urbanas, círculos de literatura de mulheres e curso de tranças africanas.

“A Casa ficou abandonada por 13 anos. Hoje, a gente conseguiu ressignificar o espaço dando a ele uma função social através da arte, além de visibilidade para um tema tão importante como a cultura afro-brasileira e indígena”, conta Alex.

 

 

Estrategicamente localizada no número 1.075 da rua da Consolação, a ocupação se propõe a oferecer cultura em uma linguagem popular. “A gente quer que a periferia que vem diariamente ao centro para trabalhar se sinta representada em um espaço que dialoga com a arte que nós encontramos lá”, conta o gestor da Casa, também um integrante do Anhangabaroots, coletivo de jovens músicos que se reúnem no Vale do Anhangabaú.

O centro é nosso

A curadora, gestora cultural e ex-diretora de eventos da Secretaria Municipal de Cultura Karen Cunha, 36, fala de sua experiência como idealizadora do SP na Rua, festa promovida pela Prefeitura em celebração ao cenário underground nas ruas do centro. “Na primeira edição foi fácil fazer a curadoria, era só chamar todo mundo. Mas com o passar dos anos, o número de coletivos aumentou tanto que passamos a abrir inscrições e a contar com uma comissão curadora que sempre fez de tudo pra selecionar o máximo de projetos possível”, lembra.

Com repertório que vai de brasilidades à música eletrônica, o SP na Rua costuma atrair um público bem diversificado. Em 2017, foram 12 horas de festa, música e performances comandadas por grupos da noite paulistana como Mamba Negra, Batekoo, Metanol e Pilantragi em 20 pontos diferentes da região.

SP na rua que reuniu diversos coletivos e festas paulistanas no centro da cidade. Foto: Ariel Martini / Festa Pilantragi

 

“O legal da rua é que não tem controle de acesso, não tem lista de convidados, qualquer um que esteja passando está automaticamente dentro do evento. E no centro o acesso é mais fácil pra quem vem de diversas partes da cidade”, diz Karen.

Ricardo Costa, 45, acredita que a arte é a resposta, a resistência e a cobrança por iniciativas públicas que considerem essa vivência no centro da cidade. Ele é fundador da Matilha Cultural, espaço localizado na rua Rêgo Freitas que abriga exposições, feira de adoção de animais, debates e programação de filmes do circuito independente.

“Estar no centro é uma forma de cobrar a atenção do poder público para que ele atue no sentido de proporcionar vivência, e não em favor da especulação imobiliária e dos interesses desse mercado”, explica Ricardo.

Karen Cunha é entusiasta de qualquer movimento cultural rumo ao centro, mas tem suas preocupações. “Muitas vezes perde-se totalmente a conexão com o entorno e se criam ambientes artificiais. Um mundo à parte. Manter essa conexão é o principal desafio. A rua é a verdadeira potência do centro”.

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