Na bike a janela é você

 

Espécie de táxi sobre as magrelas muda a vida de quem mora perto de ciclovias na cidade de São Paulo

Reportagem: Larissa Vitoriano

Fotos: Luiz Cunha

O tempo no trânsito tem sido um dos grandes inimigos do paulistano nas últimas décadas. Segundo uma pesquisa do Ibope encomendada pela Rede Nossa São Paulo, dos 365 dias do ano, o paulistano passa, em média, o equivalente a um mês e meio parado no trânsito. Isso mesmo: são 1.080 horas vendo o mundo da janela dos carros, ônibus, metrôs e trens lotados.
Na contramão desse cenário estão os ciclistas, que trafegam nos 468 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas espalhadas pela cidade. Um boom que o município recebeu nos últimos anos, com duras críticas da sociedade acostumada com o alto investimento no transporte particular, os carros.
Entre os habitués das ciclovias está Danilo Lamy, 31 anos. Há mais ou menos um ano, cansado de enfrentar o trânsito todos os dias para ir ao trabalho, ele resolveu testar o percurso de bike. “Eu trabalhava no mercado financeiro e sempre reclamei do trânsito. Mudei para perto de uma ciclovia e percebi que era a solução do meu problema. Peguei primeiro uma bicicleta normal, foi superlegal, mas cansativo. Trabalhava com roupa social e eram 10 quilômetros a serem percorridos. Troquei então pela elétrica e foi uma revolução. Passei a gastar metade do tempo do carro”, conta Danilo, que viu muitos colegas torcerem o nariz para seu novo meio de transporte.
Logo na sequência veio o clique: oferecer um serviço que mistura táxi com bicicleta e tira as pessoas do congestionamento para colocar nas ciclovias. Bingo. “Fizemos várias adaptações na bicicleta dupla para que fosse um transporte legal e confortável. Pensamos em um sistema elétrico que tivesse agilidade para o passageiro e não fosse cansativo para o condutor”, diz. Assim surgiu a Bikxi, que desde o mês de agosto já realizou mais de dez mil corridas pela cidade.
Por ora, o serviço está disponível entre a Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), na Vila Leopoldina, e a ponte do Morumbi, na zona sul. Os trajetos passam por Faria Lima, Ibirapuera e Berrini, cobrindo cerca de 20 quilômetros.
Está achando estranho? Calma, é só uma questão de costume. A auditora Luciana Patrício, 39, usa o serviço diariamente e já fez mais de cem corridas pelo aplicativo. “Comecei a utilizar por conta da péssima qualidade do transporte público, dos furtos e do trânsito. É muito mais cômodo pegar a bike. Levo metade do tempo no mesmo percurso. Além de ir curtindo o passeio! Nem lembro que estou na Faria Lima”, conta a auditora que trabalha na região e usa o Bikxi praticamente todos os dias.
O serviço atrai também quem chegou no ponto e percebe que acabou de perder o buzão. A empresária Raquil Lange, 43, é uma dessas. “Conheci a Bikxi pelo meu marido, que usa o serviço com frequência – não temos carro. Um dia, voltando do clube com minha filha, vi nosso ônibus indo embora e nessa hora lembrei deles. Chamei duas bicicletas e foi muito divertido. Fora que trânsito não existe nesse caso né?”, explica ela, que gostou do custo-benefício na corrida entre o Largo da Batata e a praça Panamericana.

Quanto vale o show?

É possível chamar uma Bikxi por aplicativo – disponível em Android e iOS. Mas dá também para embarcar na frente do metrô Faria Lima (Pinheiros) sem o uso no celular. Os bikxers ficam parados ali quando não estão em corrida e, neste caso, o pagamento pode ser feito em cartão de crédito ou débito.
O valor mínimo para qualquer corrida é de R$ 3,50 e dá direito a até 1 quilômetro. Depois disso é cobrado R$ 2,15 por cada quilômetro. Ou seja, um percurso de 4 quilômetros custa em torno de R$10. Todos os condutores e clientes são segurados em caso de acidente e o passageiro escolhe se quer pedalar ou não. Em caso de chuva, as atividades são interrompidas, mas se o cliente pegar uma tempestade no meio da corrida, a empresa fornece capa. O uso do capacete é obrigatório e há um local na parte traseira da bike para deixar os pertences, como sacolas e mochilas.
Os condutores, chamados bikxers, recebem treinamento antes de iniciar a função. Noções de trânsito, equilíbrio e maneira de tratar os clientes são apresentadas. A equipe é composta de 20 ciclistas, divididos em dois turnos, entre 7 da manhã e 20h30 da noite.

Murilo, 19, é estudante e bikxer. Se divide entre os cadernos do cursinho e a profissão. “Sempre andei de bike, desde molequinho. Pra mim, bicicleta é liberdade”, diz. Sobre os clientes, ele diz que não há um perfil específico: “O público é muito variado. Por estarmos num local de muitos escritórios, tem muita gente indo e voltando do trabalho, mas já levei até crianças”, relata.
Rachel Schein, 44, videomaker e Bikxer, está na equipe desde o lançamento do serviço. “Eu pedalo em São Paulo desde 2011 e participei bastante de todo o processo que batalhou pela construção das ciclovias. A Bikxi foi uma forma de ter um trabalho remunerado fazendo o que eu gosto”, conta.
O único defeito do serviço é só estar disponível em São Paulo e em uma região específica. Mas, se os planos de Danilo derem certo, em breve veremos as bikes duplas com os motoristas de camiseta verde fluorescente oferecendo o serviço em outras ciclovias e também em outras cidades.
E, lembre-se: na dúvida, vá de bike!

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