O underground tomou a rua

 

Cenário da música eletrônica independente de São Paulo toma corpo e alma a céu aberto. Entenda de onde veio (e pra onde vai) o movimento que inclui festas como Capslock e Vampire Haus

Bianka Vireira

Era fim de domingo, e o Largo do Arouche, no centro de São Paulo, estava repleto de corpos eletrizados. Podia ser um rolê num horário incomum. Mas era a festa de dois anos da Caldo e a amostra de um movimento crescente que está colocando São Paulo no mapa do underground mundial da música eletrônica independente. E isso significa não apenas música, mas atitude e consciência política.

“São Paulo tem hoje uma cena grande e muitas chances de se consolidar como uma das melhores noites do mundo. Artisticamente e em termos de conteúdo, é uma cena muito rica, inovadora, consciente e selvagem”, diz Paulo Tessuto, nome por trás do xodó da noite paulistana, a “Carlos Capslock”, festa que criou em 2010.

Na intenção de democratizar o segmento, a Capslock se tornou parte dessa onda que leva a música eletrônica para fora dos clubs. Alinhados nessa mesma vibe estão a Voodoohop (de 2009 e uma das grandes inspirações para tudo o que veio depois) e também as Fractal Mood, Mamba Negra, Free Beats, Soul.Set, Dusk e Metanol. Todas muitos únicas e diferentes entre si, mas unidas pelo repensar do uso do espaço urbano e do consumo musical.

“Temos uma cidade enorme com muitos locais abandonados. Eles podem ser aproveitados de diversas maneiras e oferecer ao público uma experiência diferente toda vez. Isso não acontece em um lugar fechado com pistas e bares preestabelecidos”, comenta Marcelo Madueño, um dos fundadores da festa techno Tantsa.


Apresentação do DJ Laurent Garnier na Tantsa realizada em 24 de janeiro de 2018

Consolidação

À medida que crescem, mesmo fora do mainstream, essas festas cativam um leal e vasto público. Quando realizadas na rua, em largos e praças ou até mesmo em construções ociosas, elas inspiram diversidade e integração entre classes sociais, ideologias, cores e orientações sexuais — é comum vermos embalados pela mesma frequência pessoas em situação de rua, moradores de bairros nobres e de periferia.

Mas todo esse processo não brotou da noite pro dia. É um esforço de nomes como Claudia Assef, Mau Mau, Andrea Gram, Anderson Noise e DJ Marky que, ainda nos anos 90, introduziram tendências da música eletrônica a um público acostumado ao padrão “dance” de boates e discotecas.

Érico Theobaldo, o DJ Periférico, assistiu de perto a essa evolução. Na sua opinião, movimentos culturais são resultados de uma combinação de fatores sociais, culturais, políticos e tecnológicos.

Nesse sentido, ele destaca que para essa cultura florescer, décadas atrás foram plantadas sementes. DJs e promoters que atuaram como importadores de disco, público fiel e até mesmo jornalistas engajados na causa foram importantes. “É como um coquetel formado por todos esses componentes e que iria explodir de qualquer forma, independentemente dos indivíduos”, conta.

Ao comparar o ontem e o hoje, Érico percebe um público mais receptivo e disposto a transitar entre a imensa gama de subgêneros do que antigamente. “Movimentos culturais, como o próprio nome diz, movimentam-se, misturam-se, vão e voltam, sobem e descem, e não necessariamente acabam em detrimento de outro”, afirma.

Para Marcelo Madueño, a principal mudança ocorrida nesse meio-tempo e que foi responsável por dar força à cena está na colaboração. “Muitos coletivos cresceram, e isso só aconteceu porque houve um entendimento de que o ecossistema no qual a gente vivia não tinha muito público, e que esse público precisava ser trabalhado em conjunto para que ele pudesse se multiplicar.”

O DJ e produtor Paulo Tessuto concorda. “A força de vontade de todos os núcleos que começaram seus rolês por conta própria foi mais importante do que qualquer coisa. A gente percebeu que dava pra criar algo muito mais intenso e visceral sendo independente”, diz.

Da sala para a praça

“O intuito é tirar o underground da toca com festa pública e gratuita e proporcionar uma vivência única por meio da música, da apropriação do espaço público ocioso, da vibe eletrizante da pista e da convivência com pessoas e artistas incríveis”, conta Suzana Haddad, que, ao lado do companheiro Anderson Loki, levou a festa da sala de estar de sua casa para a Praça Ramos, no Vale do Anhangabaú. Foi assim que nasceu a Vampire Haus e o seu “techno emotivo”.

“É uma forma de introduzir as pessoas a uma São Paulo de verdade, com todos os encantamentos e problemáticas que a cidade envolve. Às vezes as pessoas estão acostumadas a passar ali na hora do trampo, cansadas; mas depois de irem a uma festa, elas guardam outras lembranças, mais positivas, e criam um afeto diferente pelo local”, explica.

E se de 2009 pra cá a ascensão dessa cena se faz notória, para Marcelo Madueño ela ainda está em processo de amadurecimento em termos de público. “É preciso que cada uma dessas festas se mantenha oferecendo uma proposta original e não se perca meio ao crescimento expressivo. O público muda muito mesmo e é natural que esse amadurecimento demore um pouco.”

Para Paulo Tessuto, por sua vez, é preciso força de articulação para que a música eletrônica seja reconhecida como um instrumento de cultura. “As condições e burocracias ainda são muito desfavoráveis.”

Além do processo de produção e autorização, hoje há muitos custos (e perrengues) envolvidos. Cada edição da Vampire Haus na rua, por exemplo, requer o aval de diferentes órgãos municipais e custa, em média, R$ 8 mil. “Mas é o que a gente ama fazer. Tudo compensa quando a gente põe o primeiro disco pra rodar”, destaca Suzana Haddad.

  • TNT Energy Drink

COMPARTILHE

Comentários

Para fazer um comentário você precisa estar logado.
Login