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Garotas resistem ao preconceito do mercado de tecnologia, cavam espaço e criam iniciativas que estimulam mais mulheres a se aventurarem entre códigos e robótica

Larissa Vitoriano

Não há como negar: o universo da programação sempre foi algo distante das garotas. Ada Lovelace (1815-1852) que o diga. A matemática e programadora inglesa recebeu uma educação fora do normal para as mulheres da sua época. No que deu? Bom, se hoje você está lendo esta reportagem de um computador, agradeça a ela.

Lovelace está entre os principais nomes femininos da ciência e inspira até hoje uma série de mulheres que decidem ter a tecnologia como parte de suas vidas e profissões. Tornou-se a primeira programadora mulher e foi pioneira em incluir algoritmos no funcionamento de uma máquina, ou seja, criou uma espécie de software ou programa de computador ainda no século 19.

De lá para cá, o conhecimento científico avançou muito e a igualdade de gênero também deu largos passos, mas o mercado da tecnologia ainda encara a presença feminina com um olhar estereotipado e negativo. Segundo a ONU Mulheres, somente 25% da força de trabalho na indústria digital é composta por elas.

Por quê?

Uma possível resposta está na infância. A criação de meninos e meninas (ainda) costuma ser diferente, não há como negar. Os brinquedos das meninas são voltados aos serviços domésticos, incluem bonecas e os mais variados itens de cozinha. Já os brinquedos dos meninos abrangem peças que instigam a curiosidade e a aventura, como robôs e dinossauros. “Ainda vivemos numa sociedade que acha que existem profissões masculinas e femininas, brinquedos de meninos e de meninas. E essa diferenciação faz com que a gente receba estímulos e desenvolva habilidades diferentes. A gente acaba pensando e se colocando no mundo com papéis e expectativas desiguais a cumprir”, conta Iana Chan, 29 anos, cofundadora da Programaria, curso voltado exclusivamente às mulheres que desejam aprender programação e descobrir o mundo dos códigos.

“A Programaria surgiu dessa inquietação da falta de mulheres na tecnologia. A gente percebeu que não era natural o número reduzido de mulheres na área e que tinha uma questão de gênero que precisava ser desconstruída. Fui idealizadora do projeto e depois outras garotas se juntaram para que fosse possível formatar isso”, conta Iana, que sempre foi fascinada por tecnologia. Aos 13 anos ela teve o seu primeiro blog e contato com a programação. Esse estímulo teve influência definitiva sobre suas escolhas profissionais, que além da idealização da Programaria incluem o curso Eu Programo.

 

 

Mulheres codando

Erika Lima, 31, é programadora e mãe de uma menina de 10 anos. Ela conta sobre o preconceito nada sutil que enfrenta por trabalhar como desenvolvedora back-end, ou seja, que organiza sistemas e informações que são invisíveis aos olhos do usuário. O marido possui a mesma profissão, só que trabalha no front-end.  “Todas as vezes que algum conhecedor de tecnologia conversa com a gente acaba achando ‘curioso’ eu ser back-end e ele, front-end. Porque, dizem, normalmente mulheres são front, já que é considerada uma função mais fácil. Na visão deles, os homens devem ficar com a função supostamente mais difícil”, relata.

Erika ligou o primeiro computador aos 15 anos num curso básico de informática. Trabalhou em outras áreas, mas voltou para a tecnologia há quatro anos e meio. “Não conhecia um mouse ou monitor, eu só sabia que queria aprender a mexer num computador,” relata a programadora apaixonada pela profissão e que atua numa empresa de tecnologia.

Às sombras dos amigos, expandir os conhecimentos em ciência, tecnologia e matemática sequer passa pela cabeça das meninas ainda no período escolar. A falta de estímulo e a supervalorização dos serviços considerados como “sociais” estimulam que as mulheres fujam das áreas exatas. De acordo com um estudo publicado na revista científica Peerj, a disponibilidade de bolsas concedidas às mulheres nas áreas das engenharias e exatas (no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq) não ultrapassa 20%.

“Dentre minhas irmãs, fui a que sempre gostou de videogame e desafios lógicos. Porém, sempre tive dificuldades com matemática e exatas em geral”, conta Stefanie Melo, 29, que atua como full stack developer, ou seja, programadora tanto front-end como back-end.

Stefanie está no mercado há mais de oito anos e lembra que o início foi difícil. “A questão salarial sempre foi um dos maiores problemas. Além disso, a maioria dos homens não está acostumado a lidar com liderança feminina. Percebo que os homens apoiam muito mais o crescimento profissional de outros homens”, explica.

Na Academia o papo não é diferente

No universo da robótica, uma das mulheres mais respeitadas é Sabine Hauert, criadora da primeira comunidade de compartilhamento de conhecimentos sobre a área, a Robohub. Ana Carolina da Hora, 22, estudante de ciência da computação, a possui como inspiração e referência. “É complicado ser mulher nesse mercado. A robótica é dominada por homens brancos, o que já dificulta o diálogo. E quando cito um conceito específico, eles duvidam e querem que eu prove. É difícil conviver com isso”, explica a estudante que não teve nenhuma professora negra como referência na graduação.

Integrante do Olabi, uma organização social que busca democratizar a produção de tecnologia, Ana Carolina fez algo inédito no Brasil: a PretaLab. “Ele é exatamente o que eu queria ter tido na infância como referência para ver mulheres negras na área de tecnologia e ciência”, conta. A PretaLab dá visibilidade ao protagonismo de mulheres negras e indígenas nos campos de inovação e tecnologia. Porque tornar essas trajetórias visíveis estimula que esse universo seja visto como uma possibilidade para novas gerações.

Isso se chama ocupação e busca por representatividade. Legítimo e justo.

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